quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Ginástico #2 . Um fio de contas à luz da solidão

No quarto há apenas um objecto. É um fio de contas antigo, cor-de-rosa velho (há cores cujos nomes são mesmo justos para as coisas!). As esferas translúcidas servem para contar as horas que Samuel passou fechado naquele cubículo. São 24 ao todo e repetem-se todos os dias. Deste modo, e segundo a lógica do tempo, entre cada conta contam-se 60 minutos. Para percorrer o caminho que vai de uma a outra, como faz o dedo penitente de quem reza um terço, é preciso muita paciência e imaginação. É possível atravessar muitos rios lentos, muitas recordações de infância, muitos amores platónicos e muitos corpos invisíveis enquanto passa o tempo que vai de uma conta à outra.
Está pousado na mesa de cabeceira, o dono aparentemente desistiu da espera e determinou-se em procurar outro lugar. Pelo aspecto gasto devem ter passado muitos meses desde que aqui está, consignado apenas ao seu pensamento e à contemplação da paisagem triste. O fio é ele próprio triste, caído desolado sobre a madeira, tão baço que já não é capaz sequer de reflectir a luz da janela. Uma das contas está quebrada, mostra um pequeno orifício onde se foi recolhendo o pó dos tempos. É como se tivesse um olho negro, mirando todo o espaço.

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