quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Nocturno de Tangerina

Poucas pessoas viajam no comboio a esta hora, eu vinha lendo o Viagens na Minha Terra e intercalando as reflexões e os risos com contemplações serenas dos mantos ora viçosos ora pálidos da paisagem exterior.As cortinas verdes e a luz matutina de dia soalheiro preenchem o ar de um tom campestre.
À minha frente sentou-se uma mulher bonita, prendeu-me logo no movimento dos seus olhos: as pupilas frenéticas de um lado para o outro, atentas na passagem dos campos para lá da janela, atravessavam os extremos da retina e voltavam, oscilavam velozes entre dois pontos e repetiam o movimento vezes sem conta em fracções de segundos. Acho curioso que o olhar possa ser tão mecanicamente preciso quando dele fazemos uma ideia muito espontânea, singela, quase nem lhe damos conta.
À frente dela o filho começou a comer uma tangerina. É um rapaz de uns quatro anos. Cabelo e olhos negros, olhar vago, pele clara e macia de poucos anos sobre a Terra. Traz uma t-shirt amarela como os canários e no rosto um nariz que um dia será como o dos papagaios. Acompanha a mãe, que continua a sua viagem retiniana, e que ele vai fitando sistematicamente para saber da sua liberdade, de quando pode fugir para ir fazer conversa com os outros viajantes, fingir-se revisor de bilhetes, espreitar as leituras alheias.
Enquanto o rapaz abria a casca do fruto, soltava-se no ar um vapor branco e ácido que brilhava nos raios de luz que entravam da manhã. Os minúsculos poros da casca explodiam e inundavam o ar de um cheiro agridoce. Lembrei-me logo de ti. Do quanto gostavas de tangerinas, da tua ansiedade em finais de Outubro quando começavam a chegar as clementinas aos mercados. Sabias sempre quais comprar, avaliavas a cor, o tamanho, a consistência, o aspecto, só compravas as melhores, mais doces, mais fáceis de descascar. E comias cada uma com a dedicação de mãe que a tua presença transbordava sempre: primeiro despi-las vagarosamente, ouvindo o estalar dos filamentos quando se desprendem da casca e os espirros citrinos de fruto quebrantado. Depois apartar os gomos e despojá-los dos veios brancos como se fossem nervos, para fazer chegar à boca apenas a polpa mais pura e doce. Cada gomo ficava nu e macio e então trincavas-lhe a pele do topo suavemente, fazendo-o abrir-se e expor as gotículas sumarentas do seu interior. Escorregavas brandamente a língua entre elas e ficavas feliz como se tivesses chegado a um tesouro. Sentias o coração da fruta, sentias-lhe a alma e deitava-la na boca. Saboreavas deliciada e engolias sorrisos.
Ficou-me para sempre essa imagem de ti. Chamávamos-te Clementina por causa disso, toda a gente dizia que conhecias a índole das tangerinas, outros que já tinhas sido uma noutra vida, que ao comê-las era como comeres carne tua.
A criança continuava o deleite inocente do sabor fresco dos gomos. No final ficaria com as mãos a cheirar imenso, como tu gostavas, contaminavas tudo com aquele aroma. Fomo-nos habituando a livros a cheirarem a tangerina, a gatos a cheirarem a tangerina, ao pai a cheirar a tangerina.
A força desta lembrança derrubou-me. Quero-te viva só mais um instante, mãe. Quero que venhas hoje despedir-te de mim com cócegas e um beijo de boa noite. Só mais uma vez. Mãe. Sorrires ao veres-me indefeso deitado na cama, fazeres-me carícias nas sobrancelhas, leres-me As aventuras de João sem Medo, fugiste tão cedo mãe, nem me viste ser homem nem soubeste sequer da minha fisionomia adulta este bigode estas covas nas bochechas a falha de cabelo a minha mancha no pé esquerdo a minha barriga cada vez mais proeminente a minha dificuldade em adormecer que tu melhor que ninguém saberias curar.
É desconfortável. Lembro-me já de tão pouco... A memória vai-se esbatendo na cabeça como se fosse uma pedra exposta à erosão, perde a forma lentamente até sobrar apenas um indício do que fora. E é possível mais tarde reinventar-lhe a forma original, talhando-a ao sabor dos dias. Foi assim que te tornaste perfeita, imaculada, sem nada que te manche. Na minha memória és uma escultura magistral que resplandece em cada detalhe do seu contorno, como o Beijo de Rodin. És sonho doce interminável, afago que faz o corpo abrir-se-lhe subitamente. És bela, mãe.
Fiquei agoniado, invadido por uma espécie de enjoo de viagem, coisa que os comboios nunca viram em mim. Senti na face o calor de um esboço de lágrimas, quero-te só mais uma vez mãe.
De repente cai sobre o meu pensamento uma frase: "Sais do meu corpo para as partituras cruas do mundo." Foi o que disseste quando nasci, como posso lembrar-me? Não é humanamente possível que eu tenha uma recordação tão remota, já lá vão trinta e nove anos, e no entanto lembro-me tão nitidamente do quarto cheio de sol, e os lençóis brancos e a colcha de bilros manchada de sangue e o vulto da parteira, tranquila, e do pai contendo a aflição enquanto eu teimava em não sair da tua barriga. Sempre contaste que eu tinha nascido entre duas tangerinas, a que comeste antes e a que comeste depois, mas nunca me repetiste o que disseste ao ver-me chegar. Sei-o agora, revelado pelo cheiro citrino. "Sais do meu corpo para as partituras cruas do mundo". Palavras tão amplas e que definiram de modo tão íntimo o meu destino. Estive sempre mergulhado em música, os dias escorreram-me para dentro das partituras, inspirando sustenidos e expirando bemóis, acordando sol e adormecendo pausa. Foi o orgulho da tua vida, ter um filho pianista. Ias aos concertos e ficavas na última fila para ninguém ver a comoção. Como posso lembrar-me do meu nascimento? Mas lembro, tenho essa fotografia de passado inatingível, reconheço o cheiro e ouço o silêncio que cortavas com os berros de dor, depois com os suspiros de alegria ofegantes.
Encontrei-me contigo hoje no princípio de tudo. Na palavra primeira que foi fatal. Descobri hoje o poder de uma mãe: saber tudo sem nunca precisar de o afirmar. Penso nisso enquanto a criança sorve a tangerina e percebo então que voltaste e quero morrer para que o início e o fim se toquem. Eu saber do princípio no meu fim, assim como soubeste do meu fim desde o início. Lembro-me da tua expressão exausta e heróica, acabando de ser mãe, dizendo-me... quero apontar a frase. Não encontro papel para escrever e fixo-a na palma da mão, onde invisível sempre esteve.
Suspendo-me. Fico calado, cheirando o agridoce da tangerina, ouço-te a voz doce embalar-me, a voz amarga ralhar-me, vejo-te os olhos negros fundos e sinto-te a pele enrugada e branca. O comboio desliza pelos campos. Nos meus ouvidos vai-se compondo um nocturno em tua memória, na tua memória. Sinto-me transformar numa pausa quebrando o compasso. Saí do teu corpo para as partituras cruas do mundo.

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