Vesti as tuas calças de fato de treino, ficam-me demasiado compridas e largas no rabo mas agrada-me a ideia de poder de alguma forma vestir-te. Sentei-me a escrever e do meio das pernas atingiu-me o teu cheiro ainda no algodão, o cheiro do meio das tuas pernas no meio das minhas pernas como vento que sobe e bate na cara.
Arrepiei-me como se tivesse narizes em todos os poros da pele. Deixo que me entranhe este restinho do teu corpo, da transpiração ácida do teu sexo colada agora às minhas coxas. Materializas-te assim aqui, que nunca mais voltas, faço-te demorar e entretenho-me na espera fantasiando que vens agora, inédito como dantes.
Começa a deixar-me maluca, este cheiro — sinal de ti, do nosso tempo na cama abrindo caminhos lúbricos nos corpos. Fico quente, trémula e tensa. Faço-me passear pela memória de ti há já não sei de quantos dias, já me faltas há algum tempo.
Quero beijar-te os olhos e em cima de ti rastejar de narinas coladas ao teu pescoço e descer-te pelo ombro e pelo ligeiro vale que desce por entre os mamilos até ao umbigo e quero este cheiro a envolver-me toda até destruir os outros sentidos.
Mas sobretudo o teu cheiro primeiro, do teu pescoço, aquele por que me apaixonei, antes mesmo de por ti. Quando voltares, estranhar-te-ei o cheiro, hei-de voltar a distingui-lo, um dia desenhar-to.
Se não havemos de reinventar tudo, chamo-te um novo nome, esqueço o percurso constelado da tua pele, fantasio-me outra e deixo-me escorrer por ti, cheirando-te.
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