Maria queria esticar as palavras de Bernardo, para que durassem mais. Relia-las, descobria-lhes novos sentidos, repetia-as em voz alta até serem apenas som. Não chegava. Ele escrevia sempre pouco, deixava-lhe apenas uma prova, duas palavras na ponta da língua, uma mensagem no telemóvel, uma frase fugaz no e-mail. A ela sabia-lhe sempre a pouco.
Bernardo escrevia sincero, tão exposto e tão reservado como se posasse para Ingres, escrevia inocente deixando nos espaços entre as palavras o odor da sua pele, resquícios do sabor da boca ao mudar das linhas, sorrisos tímidos e beijos longos nos olhos cerrados em cada pausa de parágrafo.
Maria sorvia tudo, ávida.
Transcreveu os textos do dia para post-its e foi pelo caminho até casa a repetir mentalmente como dantes fazia com os recados da mãe.
Ao fim do dia o mar engoliu um remoínho de nuvens junto com o sol. Formavam uma hélice branca de contornos esbatidos por cima do azul que gradualmente ganhava a violência do tom crepuscular.
A linha do horizonte sorveu os raios corados e os vapores suspensos no céu. Demorou 16 minutos.
Bernardo entrou em casa com uma palavra presa no colarinho. Já lá estava há algum tempo, pendida de desencorajo como uma gravata velha, ou um babete enruçado. Caiu ali porque já não se continha mais em pensamento. Maria viu-o entrar assim e sorriu com malícia. Era uma palavra simples, mas a sua geração havia-a contido como a uma proibição legal: demasiado romanesca, demasiado ardente para tempos tão temperados.
Beijaram-se na testa e sentaram-se na varanda a jantar. O azul era já uniforme, denso, misterioso, mas ainda luminoso, quente: era a hora preferida de ambos.
Maria tinha posto um post-it sobre o prato, dizia: Bom dia! O meu começará quando voltar a casa: tu. Bernardo reconheceu a autoria, era uma frase ainda fresca, dessa manhã. Pestanejou docemente, susteve nos pulmões a hesitação e disse num ápice mas sem perder uma única letra: gosto tanto de ti.
Foi tudo o que lhe saiu, um eufemismo acanhado e logo depois o suspiro da frustração de encontro ao riso meigo de Maria, que lhe olhou o peito fitando o verbo descaído e respondeu: e eu a ti.
O céu ficou mais noite, uma escuridão funda absorveu-os, e o lençol de sol e nuvens deslizou para outro hemisfério.
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