sábado, 28 de março de 2009

Pai

Quanto teu pai morrer derramar-se-á a cor dos teus olhos sobre a sua pele árida. Inchará a tua iris, tanto, até transbordar e entornar pela circunferência do teu olhar.
Quando teu pai cessar, o teu pigmento ocular deitará fora das bordas do dia.
Se são castanhos os teus olhos, serão troncos de árvores de uma floresta inteira tombando na tua córnea, serão outonos secos antigos fechando-se como cílios.
Se são azuis, será o céu e o mar e o reflexo de todos os espelhos avolumando-se numa lágrima cerrada, expelida pela iris vagarosa, fazendo da cor uma pasta líquida entornada ou um desenho de lápis de cera esborratado, exausto.
Se são verdes, oh, toda a clorofila terrestre falecerá dentro da tua pupila, borbulhará grossa e deixar-se-á cair entre as pestanas, nem as folhas com mais viço sobrarão.
Seja qual for a vaidade dos teus olhos, assim que teu pai expirar, a luminosidade apagar-se-á e serão secos, serão neutro cinza gasto murcho.
Teu olhar será massa viscosa arrastando-se pelos minutos no sentido contrário ao do ponteiro, será uma cor falecida na mácula que habita entre os vasos sanguíneos. Estéril.




Obrigada ao crítico de sempre e ao revisor de vírgulas. =)


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