terça-feira, 7 de outubro de 2008

Domingo

No cúmulo do sentir-te a falta, a noite inteira sem dormir, no insuportável desespero de não seres pele que me tocava, o meu corpo decidiu inventar-te. Fiz força como fazem as crianças quando acreditam em magia, fiz força até me doerem os músculos todos, cerrando os dentes, sobrepondo as pálpebras, fiz força para te criar aqui. A partir de um pulmão meu. Queria tanto que fosses um bicho sobre o meu lençol, enroscado no meu ombro fazendo-me cócegas com os pêlos dos braços, babando a almofada, semeando o cheiro do suor do sono na minha cama.
Fiz muita força, no escuro e no silêncio, e desenhei-te a partir da ponta dos dedos dos pés, subindo carne quente, as pernas, os joelhos bem definidos, as coxas moles, o sexo adormecido, a barriga, o umbigo os mamilos salientes os músculos dos braços e. Os sinais. E o pescoço liso e o queixo pendido e a boca aberta a respirar e a respiração serena, de gato que dorme, a cor dos olhos escondida pelo sono. Imaginei-te até ao teu sonho, dormindo à minha beira, no limiar da saudade.
Que dói tanto, tanto, não haver um pedaço de carne teu no meu ombro, uma ponta de nariz que me festeje. Um afluente do estarmos juntos que ainda há pouco corria.
Hoje é Domingo. É Domingo em mim também.

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