segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

À janela

Acabo de acordar e apercebo-me, pelo revolver dos lençóis, que ela já está acordada há muito tempo. Não lhe compreendo a incapacidade do corpo para dormir mais. Oito horas é o máximo que se permite. Depois disso, como agora, acorda e não tem coragem de ficar mais um pouco na cama, diz que vão assaltá-la os maus pensamentos, que não, não é ela que os atrai, mas eles que persistem e lhe invadem o território mal acorda. Levanta-se e vai com certeza beber o habitual soco de água fria com que inaugura o estômago todas as manhãs.
O quarto ainda cheira a noite. A ausência de luz tem-no tornado mais húmido, mas tem-me feito esquecer a decoração exibicionista de Luzia.
Ela volta, já sei de cor o que vai fazer, abre com cuidado duas tirinhas da persiana amarela e senta-se no banquinho encostado à parede fria com o caderno nos joelhos e a caneta na mão.
Odeio que o faça, mas por me julgar sempre adormecido fá-lo todos os dias. Deixo-nos estar, a mim fingido e a ela iludida, porque no fim quero poder contar a história com todos os pormenores, todas as pequenas e as graves reacções que tem tido, o quanto lhe custa preparar-se para a eternidade.
Pousa a caneta no papel e tenta desenhar-me. Vá, Luzia, repete o gesto, e repete como é bonita a forma como me babo na almofada e deixo uma mancha cor-do-lençol-mais-escura. Contorço-me falseando um gemido de sono, que um desenho de mim a babar-me é que não, mulher, põe a tua estética pelo cano abaixo, ou pelo céu acima, longe.
Assim agachado nas mantas, virado de lado, convincentemente manipulado pelo sono, desiludo-a da melhor forma que sei. Ficou apenas o cabelo para desenhar, isso vai demovê-la com toda a certeza. Uma vez deixei os pés de fora, o que se mostrou uma péssima ideia. Sempre achei os pés uma parte do corpo dispensável, apenas necessária pela sua função de nos colar ao mundo. Mas Luzia vê-os com o encanto de um objecto belo. Diz que a curva superior define o quão afastada está a pessoa do seu chão, que quanto mais acentuada for mais supérfluo será o dono. Por isso abriu o sorriso vespertino e empenhou-se rapidamente em desenhá-los, convencida de uma, até que em fim, vitória.
Eu não me importaria que Luzia me desenhasse os pés se para isso não precisasse de luz. E, claro, não consegue fazê-lo, tal como eu não posso revelar-lhe o meu porquê.
Estamos nisto há três meses e dois dias. Acorda, levanta-se, eu fingo, tenta desenhar-me, desilude-se, vai para a sala ler, nunca consegue, foi perdendo o juízo, entretém-se com as formigas assíduas, às vezes volta para a cama e pede mimo, sai e faz bolos, de vez em quando limpa o quarto, reviravolta-me no colchão ou põe-me em pé encostado ao armário enquanto muda a roupa da cama, pergunta-se o que é que eu faço para passar o tempo, traz-me os bolos, a comida, e traz-me todos os segredos que os dias lhe foram contando.
No fim deita-se e contorce-se com os porquês. Porque é que não quero luz, porque é que não me levanto dali sem os olhos fechados, porque é que ocupei a marquise com um improviso de estúdio, o fundo branco gigante e as sombrinhas prateadas todas apontadas na mesma direcção, o banco do modelo e a cadeira de realizador, a câmara pronta, tudo disposto minuciosamente, porque é que em Junho deixei aquilo assim e me meti na cama e proibí a luz de entrar, jurando-lhe ao deitar-me: ao fim de 60 anos a tirar fotografias, a tua vai ser definitivamente marcante.
O fotógrafo que fui há-de ficar para a história como o mais sinestésico de sempre. Esmiucei o significado de todos os sentidos em todas as coisas, toquei em bichos asquerosos para lhes conhecer a pele, lambi malaguetas, cheirei camisolas de lã, observei corpos horas a fio à procura de algo memorável. Na fotografia só interessa o memorável. A minha intenção sempre foi registar a síntese do imperdível de cada coisa. Nada mais, nem uma parede, nem uma cor, nem uma luz.
E depois encontrei-a. E provei-a obsessivamente de todas as formas possíveis, as reais e as que imaginei, e tudo se me impôs como registável. Luzia sempre foi autoritariamente imperdível. Os olhos amendoados, a boca acetinada, o cheiro a coco, a pele branca, o sorriso amargo dos piores dias, as sobrancelhas franzidas, as rugas a ceder à gravidade, o verde texturado do olhar.
Tudo isso eu vi envelhecer sem saber como registar fielmente, sem encontrar o método ideal, a câmara, a lente, o lugar, o ponto de vista, a luz, a abertura, o tempo de exposição. Em qualquer posição Luzia me pareceu todos os dias a perfeição, e em nenhuma fotografia consegui regista-la.
Agora tenho um plano. Enquanto lhe cai uma bola gelada pela ruga do olho esquerdo, enquanto julga que não a vejo, vivo cada instante nervoso por ter chegado o dia.
É hoje. Luzia desiste da intenção de desenhar-me, triste comigo, e com o meu sono, e mesmo assim vem deitar-se ao meu lado, fechando primeiro a janela. Adormece num sono leve e começa involuntariamente a acariciar-me os pés com os seus pés a um ritmo veloz e constante, que eu estranho, mas está claramente a sonhar e isto é um reflexo incondicionado do adormecer. Obriga-me a sorrir e virar-me de frente, dar-lhe um beijo na testa e sussurrar uma gargalhada. E ela acorda molengueira e diz, com um ar desengonçado: Sonhei que era um cão e não parava de abanar a cauda de contente. Rio-me, tento adormecê-la de novo mas ela põe-se a pensar o que é que isto terá significado: Que coisa estranha! Mas poderá isto significar alguma coisa? Um cão a abanar a cauda de contente.
Podia ser felicidade, ansiedade, gratidão, até podia ser cócegas, mas Luzia tem de escolher uma. E juntá-la ao puzzle confuso que tem na cabeça sobre o meu estranho plano dos últimos meses quentes.
Levanta-se em alvoroço e entreabre a porta do quarto para desistir de mim. Vê entrar apressada uma formiga. Haverá açúcar por perto?, pensa. Franze a testa e lembra-se do bolo de chocolate do jantar, colhe algumas migalhas do prato em cima da cabeceira e atira-as para o chão. Observa a formiga a transportar um pedaço bem maior que ela, rola-lhe a gémea da outra lágrima pela ruga direita e faz força com o indicador contra a madeira do chão. Suspira, estranhando em si tamanha violência, e pergunta baixinho: porque é que fazes isto, Luiz?
É amargura demais, reconheço, e admiro-lhe mais uma vez o respeito que mostrou pelo meu esquema. Preferiu endoidecer a arrancar-me a verdade. Como se enlouquece facilmente aos 72 anos! Admiro-a com o olhar quase fechado, remelado e dorido da escuridão.
E por fim levanto-me. Vejo-a, pela penumbra da porta entreaberta, naquela expressão, com uma lágrima na face e a formiga colada ao dedo a sofrer um último movimento. É perfeito. Agarro-a com força num abraço de costas e sussurro bom dia. Assusta-se comigo, tão perto da luz da sala, confirma que tenho os olhos fechados, e de sua doidice de manicómio diz: tens um arco-íris na testa. Eu não questiono, não pela sua falta de juízo, mas porque sei ser verdade, hoje é o dia, e sem abrir os olhos avanço.
Luzia julga que vou mijar. Mas em vez disso dirijo-me à marquise-estúdio, sento-me na cadeira de realizador e ainda sem ver descubro a Yashica, removendo-lhe a capa, e digo alto e peremptório: Luzia, senta-te ali, vem assim como estás, chorosa e com a formiga na ponta do dedo, e mantém-te quieta a olhar para mim até eu dizer: sorri. É hoje o dia.



Dois dias depois toda a gente sabia a história. O padre contou-a na missa com a devoção de funeral mas num tom épico que nunca se tinha testemunhado:
O Luiz endoideceu e com ele a mulher. Viveram os dois mais de três meses nas trevas e ontem, era precisamente meio dia, ele sentou-a na cadeira do seu estúdio de fotografia improvisado na marquise e, de olhos bem fechados, que não viam luz há tanto tempo, abriu as paredes de vidro e carregou no botão da máquina fotográfica ao mesmo tempo que afastou as pestanas, voltando a ver. A luz do sol, no seu auge, queimou-lhe as retinas com a imagem dela, com uma lágrima na bochecha mas a sorrir, e com uma formiga morta no dedo indicador esquerdo. E quis Deus que morresem ali, unidos, tendo apenas sobrado esta fotografia, que vai ficar para a história como a fotografia mais viva de sempre.

 
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