domingo, 16 de dezembro de 2007

A terapia das cebolas

Na sala estava uma confusão tão grande que ninguém se lembrou sequer que Eugénia poderia precisar de ajuda. O livro de receitas estava aberto em cima da banca e no topo dizia "Coq ao Vin". Eugénia leu na diagonal, para confirmar que estava tudo pronto, lavou as mãos e pô-las à obra. Cortou o frango em pedaços, com a delicadeza a que o corpo a tinha habituado. Por um frango morto tinha, aliás, bem mais consideração que por ele vivo, sempre o achou um animal nojento. Tirou as peles, martelou a faca nas ligações dos ossos e fez um pequeno puzzle de frango dentro da travessa. Temperou-o com sal, pimenta e vinho tinto. Foi buscar as cebolas à dispensa, lavou-as com jeito e meteu-lhes a ponta da faca para as descascar. Na receita dizia que evitasse golpea-las muito, mas naquele preciso instante Eugénia parou. Olhou para as mãos molhadas com as cebolas medrosas. A melancolia inexplicável que sempre carregara consigo explodiu. Era a melhor desculpa de sempre para chorar. E chorou longos minutos em silêncio, como se chora da acidez das cebolas, com pequenos soluços e uma contenção dolorosa. Picou-as o mais que pôde, aliviando-se a cada golpe. Ficou com os olhos vermelhos, os ombros sem força, as bochechas rosadas, a alma branca e as cebolas em puré. E continuou a receita, como se fosse suposta ser assim mesmo, na esperança que aquela amargura provocasse em alguém uma indigestão.
Enquanto o preparado alourava no tacho, Eugénia prendeu a atenção na poesia da receita: descasque as cebolinhas evitando golpea-las muito; aloure levemente os pedaços de frango na gordura, mexendo com cuidado; pegue-lhe fogo e deixe arder alguns segundos; pegue-lhe fogo e deixe arder alguns segundos; pegue-lhe fogo e deixe arder alguns segundos.
Assim fez.
Os bombeiros chegaram rápido, mas ainda assim durou bem mais que alguns segundos. A chama espalhou-se pelo fogão e atacou as cortinas. E ninguém sofreu, para além do falecido frango, e das esmagadas cebolas. Mas nunca mais a deixaram cozinhar. Que ela realmente já não tinha pachorra para aquilo, não; que lhe davam todo o crédito, mas que merecia alguém que o fizesse por ela, que não podia continuar a ser escrava da cozinha, já com dois empregos, já com dois filhos, já com dois maridos e já sem um rim.
Sem a terapia das cebolas, Eugénia dedica-se agora ao sofá de Domingo à tarde e alivia-se como pode enquanto finge comover-se com os filmes da televisão.

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