domingo, 9 de dezembro de 2007

Um pouco de ti

Estou a lutar pela indiferença. Sentindo por ti este ódio és demasiado importante para mim. Preciso de abafar-te aqui dentro e esquecer os impulsos que me levam a procurar sinais de ti para poder detestar-te. Não posso dedicar-te este meu tempo porque não gosto de ti. E odiar-te dá-me demasiadas dores de cabeça, por isso hoje decidi optar pela indiferença e cultivar passatempos inúteis em vez de pensar em ti.
Posto isto, escrevo. Como vês escrevo sobre ti o que nem trai a minha intenção nem cumpre a minha necessidade. Chega a ter piada, não conseguir realmente ignorar-te! Ainda por cima estou influenciada pelo Nijinski e a sua escrita menor e tendo para as frases curtas, o que acaba por dar-te ainda mais importância.
Chega!
Falemos do cheiro a maracujá e dos pássaros a assobiar nos parapeitos das madrugadas. Acordar assim é mel. Um espreguiço e sente-se que se faz parte do mundo. Olha-se lá para fora e quer-se voar. Levanto-me finalmente e tomo banho, antes que o sono me vença a manhã. Água a escorrer pelas costas, mais fria do que devia, esqueço tudo, é só mais um dia exactamente igual aos outros dias. E por isso é fácil cumprir o resto das tarefas, tomar o pequeno-almoço, decidir o que vestir - é neste momento que o dia começa a diferenciar-se dos outros, por isso teimarei sempre em dar importância ao que visto -, fazer a cama e lavar os dentes e pôr os cremes e fazer o lanche e sair. Igual. Pegar no carro, abrir a porta, fechar a porta, abrir o portão, fechar o portão, mudar o cd e no meio desta rotina lembro-me de ti. Do quão não gosto da forma como te mexes, como falas, como dizes que um dia vais emigrar para uma cidade cheia de estilo, do quão me aborrece a tua conversa sobre o teu triste fado que há-de sempre ser maior que o dos outros que no fundo desprezas, e fazes o olhar de quem se pensa maior e esperas que o percebam e repetes o tique de apertar o lóbulo da orelha. E o peso que me pesa por não saber se me dedicas ao menos uma parte do que faço por ti.
Tenho muito em que pensar, tenho mesmo, e este tempo que te dedico faz-me dores de estômago, porque enquanto penso em ti sinto raiva por não o poder evitar. Pensei que escrever sobre isso podia de certa forma exorcizar-me, mas vejo que continuas presente. Temo que seja preciso fartar-me de ti.

Eu sabia o que fazer contigo. Afinal fizeste de mim uma pessoa melhor. Ao fugir daquilo que tu és aproximo-me da perfeição. Tentar desimitar-te tem-me treinado a sensatez e a leveza que me faz tão bem. Começo a duvidar do que significa odiar alguém. Já sonhei contigo tantas vezes que já nem ligo quando acordo e me lembro de teres invadido a minha noite.

Tenho-te sido mais fiel que aos meus amores.

Mas agora, que pensei estar a sarar e a deixar de te deixar ocupar-me tanto pensamento, parei no semáforo e tudo o que consegui sentir nestes 20 segundos foi saudades tuas. Talvez não tanto saudades tuas como saudades de estar contigo, desse combate interminável de personalidades que executámos ontem, eu a esforçar-me por te mostrar que estou bem, e não preciso de ti para nada, tu a convenceres toda a gente que sempre foste para mim um tutor, um mestre, como se me tivesses ensinado tudo o que sei, como se me acarinhasses como a um discípulo. E eu a emanar independência, e sorrisos felizes para disfarçar a adrenalina de lutar contigo. É o que me resta. Cultivar o ódio por ti. E fazer-te acreditar que é indiferença.

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