Ela mantém-se hirta no alcatrão quente. Nada mexe, excepto de vez em quando um espasmo de algum órgão ainda vivo. Os olhos esbugalhados em direcção ao céu prometem dias melhores, como se no fundo aquilo fosse um princípio e não o fim.
Os carros passam mais ou menos desatentos. Como é possível que a deixem ali assim? O fio de sangue ainda a cair pela boca, o pescoço partido e a barriga aberta, o início do cheiro a decomposição.
De repente fica tudo branco e gelado. Branco, gelado e vazio, é assim o nada. Ela deixa de o ser. Esvaída do mundo no meio da estrada sem que um homem sequer se aperceba do brilho que ainda ostenta nos olhos parados, sem sítio para onde levar as memórias de uma existência curta e solitária, mas feliz.
Quando o carro a atropelou não pensou que fosse tão grave. Pensava que tinha sete vidas. Já havia gasto algumas a proteger os filhos, é verdade, mas nunca imaginou ter esgotado o crédito. Deixou-se estar, deitada, mole, à espera do fôlego para fugir dali. Não veio. E o carro nem sequer parou. Abrandou um pouco, olhou com pena e seguiu rumo à sua vida.
Foram 12 minutos a sofrer. Lento. O sangue começou a cair, sentiu a espinha congelar, depois deixou de sentir os membros, perdeu as forças, pensou em tudo o que gostava, tudo, assim rápido como um fast forward num filme, começou a sentir-se tranquila, depois estranhamente em paz, e morreu. Quando respirou pela última vez ouviu-se ainda um ronronar.
