1ª cena — Da impossiblidade de explicar o valor do livro e do tempo(Gabriela e Ângelo)
Sofá barato de tecido cinzento, em sala de descanso de grande empresa
Gabriela sentada confortavelmente no sofá, lê o livro "Equador", de Miguel Sousa Tavares. Ângelo, de braços cruzados parece estar simplesmente a relaxar depois do almoço. Passam pessoas do lado de fora da sala, espaçadamente.
Ângelo — O que é que está a ler?
Gabriela mostra a capa do livro a Ângelo.
Ângelo — (em tom irónico) Ah, está a ler isso em boa altura!
Gabriela franze as sobrancelhas
Gabriela — Pois, depois de ler isto vai ser bem mais difícil sentar-me ao computador e desenhar a identidade de hotéis em Angola…
Ângelo — (falando por cima de Gabriela) Não, é que esse livro já saiu há uns anos, não já?
Figurante — (de fora da sala) A personagem morre no fim!
Gabriela — (indignada com a observação de Ângelo, volta-se para a voz e diz com indiferença) Morremos todos.
Ângelo — É muito descritivo, gosto dos livros com mais acção.
GaBriela — (sorrindo) Eu gosto que o tempo faça o trabalho por mim, sabe? Na verdade até leio mais clássicos que contemporâneos.
Ângelo — Ah… pois… gosta de ter a opinião de quem já leu, não é?
Gabriela — Se tempo for suficiente, os livros insuficientes já nem estarão nos escaparates.
Gabriela volta ao livro.
2ª cena — É preciso fazer vénia a alguns leitores?
(Gabriela e Alberto)
(Gabriela e Alberto)
Banco de jardim de madeira verde à beira de esplanada de restaurante
Gabriela sentada com as pernas cruzadas à chinês em cima do banco, lê o Crime e Castigo, de Dostoiévsky. Alberto, sexagenário, gerente do restaurante, sai pela porta e aborda Gabriela.
Alberto — Já acabou o seu ioga, menina?
Gabriela franze as sobrancelhas.
Alberto — É que nessa posição... deve ser ioga!
Gabriela — Ah, isto é uma posição de conforto... estava aqui a ler.
Alberto — Veio jantar?
Gabriela — Não, não...
Alberto — É que como a vi aqui sozinha, pensei que estivesse à espera de alguém para jantar
Gabriela — Não, estou mesmo só a ler. Bem sei que estou quase no meio do seu restaurante, mas este é o único banco do jardim onde bate o sol... posso estar aqui, não posso?
Alberto — Pode, claro que sim! O que está a ler, já agora?
Gabriela mostra a capa do livro a Alberto. Ele recua um passo e faz uma expressão de espanto exagerada, depois uma breve pausa, e passa a falar num tom mais pomposo.
Alberto — Ah menina, mas isso é um prazer! Saber que ainda há pessoas que lêem esse livro... a menina é uma ave rara, sabe?
Gabriela — Ora, ainda há por aí umas quantas, basta estar atento.
Alberto — Pois, mas esse livro não é fácil, não! E alguém da sua idade... desculpa lá, mas... quantos anos tem?
Gabriela — Vinte e sete.
Alberto — Meu deus, ninguém tem vinte e sete anos! Olhe, é mesmo um prazer...
Gabriela — (sorrindo) Ler este livro é um prazer, sim.
Alberto — (pasmado) E alguém a atura? Tem namorado, se não é indiscrição?
Gabriela — (rindo) Tenho sim. Mas não é por acaso que estou aqui sozinha.
Alberto — Pois claro que sim, claro que sim. (Ri-se simpaticamente, dá uma passo atrás, e novamente em tom relaxado) Olhe, peço imensa desculpa por tê-la incomodado enquanto lia esse livro. Fique à vontade.
Gabriela volta ao livro.
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