Ela passou a noite acordada, naquele estado em que não se sonha, mas se cria imagens que habitam a realidade, e se vive como se fosse verdade. Havia sentimentos espalhados pelo quarto. Como se fossem balões brancos, como se não tivessem peso, quase a levitar, sentimentos pequeninos e alguns maiores, outros grandes, pousavam no soalho, na colcha tricotada, no tapete geométrico, na mesa-de-cabeceira um sentimento redondo do tamanho de um punho, no estofo da cadeira um sentimento do tamanho de uma ervilha, caindo pela luz escorrida do candeeiro um sentimento maior que um homem inteiro. Esperavam todos serenamente que Ela os atingisse, era uma espécie de jogo-angústia, Ela atingindo apenas os mais pequenos e todo o esforço para chegar aos maiores vão.
Estes sonhos prendem o corpo a um chão etéreo. Injectam um sentimento até o corpo transbordar e deixam-no ali, espumando indefeso.
Ela acordou tão triste.
Chamou-o, contou-lhe da noite, disse: Queria tanto atingir os sentimentos grandes, e pediu-lhe que viesse, que trouxesse o pequeno-almoço e algum carinho. Ele em vez de pão trouxe papel.
Desenhou-lhe uma escada. Com um lápis aguçado construiu-a degrau a degrau. Desenhou a carvão uma caravela e a lápis de cor uma corda grossa. Rabiscou a tinta-da-china um carrinho de rolamentos e com uma caneta transformou-lhe os braços em astrolábios, a língua em bússola e os pés em âncora. Disse-lhe: Vai traduzir cada balão, sorve-lhes todo o ar, faz-te acto-efeito de sentir.
Ela estendeu o corpo em cima do dele, abriu-o como a um mapa, e sonhou.
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