sexta-feira, 4 de junho de 2010

De casa para a escola

Páro o carro e saio para revisitar o Caminho Fundo. É um troço de terra e ervas daninhas que era a parte mais especial da minha viagem de casa para a escola primária. É o cheiro perpetuado dos eucaliptos e a terra molhada que me traz a memória para a beira do corpo.

Um dos defeitos do tempo é a alteração da escala. Quando eu fazia este caminho todos os dias, a minha altura de criança pequena fazia tudo parecer maior: as distâncias eram multiplicadas, a altura dos muros escondia-me, as pessoas eram muito mais respeitáveis.
Saíamos de casa muito cedo, eu e a minha mãe ligadas pelas mãos. No ar ainda restava orvalho e fresco da manhã, mesmo quando era Verão. Subíamos a estrada de alcatrão durante uns cem metros e depois cortávamos por aqui, um atalho estreito e em terra ora seca e dura ora lamacenta. De novo, há apenas uma tabuleta que o nomeia Rua da Fonte do Carvalho. É uma metáfora justíssima para descrever um caminho feito de terra. Mas o nome foi-lhe posto por razões mais objectivas: o percurso ate à escola começa efectivamente numa fonte de pedra. Irrompe água ininterruptamente, que dantes bebíamos sem desconfiar da qualidade biológica. Foi provavelmente essa fonte que me ensinou o poder na Natureza. Cresci rodeada de campo: havia o Rio Febros, afluente do Douro, ao lado de casa, e a escassez de habitantes na aldeia permeava a paisagem de verde. Mas aquela fonte brotando água para o chão, no Inverno possante e no Verão mansa, era a prova derradeira do poder da Natureza: eu deixava-me ficar ali muitas vezes, arrasada por essa violência, vendo a água transparente e cristalina arrefecer-me as mãos e desfazer-se sem fim no chão.
Depois dessa fonte, passávamos por uma minúscula capelinha de granito com uma santa exposta a que se usa chamar alminhas. Estes padrões são muitas vezes erguidos quando um acidente mata alguém na estrada, e por isso costumam surgir em cruzamentos e troços perigosos. Mas ali, incrustadas no muro da casa da minha avó, é por culto ou por precaução que existem as alminhas, erigidas antes de as almas serem sacrificadas, como deveriam talvez ser todas.

Entrávamos então na melhor parte da viagem, o beco da fonte do Carvalho. Carvalho era o lugar da aldeia onde vivíamos, Olival. Sempre achei curioso viver no Carvalho do Olival e sempre achei que deveria ser Olival do Carvalho, porque havia ali muito mais carvalhos que oliveiras. Por vezes alguém desvirtuava as tabuletas da rua e privava o nome do lugar do seu érre. De qualquer forma era bom viver ali.
Entrando pelo caminho fundo, eu era ultrapassada em altura pelas costas da casa da minha avó à esquerda e por um muro de pedras povoado por musgo à direita. A impetuosidade granítica do Norte.
Caminhava apressada para acompanhar o passo da minha mãe, que ia contando histórias dos habitantes dali ou ouvindo as minhas sobre as peripécias da escola. Entretinhamo-nos facilmente, e não me lembro de alguma vez não ter gostado de fazer aquela viagem. O que eu não gostava era que ela me tirasse o sono das remelas com os dedos e saliva. Eu fazia sempre uma cara feia e afastava-lhe as mãos. Ela encarava aquilo como uma birra de filha e nunca deixou de o fazer.

Aquele trilho tinha sido traçado por algum lavrador na necessidade de passar com os instrumentos de rega e cultivo para a sua propriedade. Servia de fronteira entre dois terrenos e entre dois donos, e como todas as fronteiras, era de ambos e não era de ninguém: era de todos.

As melhores paisagens eram nos dias de sol do Inverno: silvas altas, trevos onde dormiam as gotas de orvalho, musgo alastrando, o reflexo do sol na água. Quando chovia só se passava ali de galochas, e se houvesse intempéries mais graves era impossível atravessar e íamos pela estrada até à escola.
Por vezes apanhávamos morangos selvagens que se distinguiam no verde ao pé da água de uma levada roubada ao Rio Febros. As flores da Páscoa surgiam mais cedo, amarelas. As castanhas mais tarde.

O som da água a passar é tão confortável; é ainda o que mais me fascina ali. Um dia atiramo-nos para fora das coisas e elas ganham significados completamente novos. Na altura a água era apenas água, estava lá porque sim e o prazer era inconsciente. Depois, na escola, ensinaram-me a pensar: hoje é uma experiência estética. Não sei se isso é bom ou mau, sei que aquela mistura de água, granito e verde é o que me define, devo ser assim por dentro: carne-trevos, granito-ossos, sangue-lama e água, água.
Ouvia-se água por baixo do chão, que se expandia sob formações rochosas com intervalos vazios, pequenas grutas subterrâneas. Era misterioso ouvir a água e não a ver, não lhe saber o rumo. Hoje é apenas belo.

Quando não havia morangos para comer nem flores da Páscoa para fazer ramos nem bolotas para os porcos nem ouriços de castanhas pontiagudos, havia então os frutos dos carvalhos onde nascem as moscas. Mais tarde nunca consegui convencer as pessoas que as moscas nascem ali dentro, cheguei mesmo a desacreditar-me. Mas comprovo-o agora, sem o encanto da infância mas com o entendimento crescido: as moscas nascem nos carvalhos, sobreiros e azinheiras. As mães picam as folhas da árvore para depositar os ovos e ela reage desenvolvendo uma seiva de defesa em forma de bugalho. A mosca cresce lá dentro, alimentando-se do interior esponjoso; a larva torna-se ninfa e depois insecto adulto. As moscam nascem nas bolinhas castanhas dos carvalhos que também usávamos como berlindes. Nunca consegui gostar de moscas, mas admiro-as por isso.

No Outono era o espectáculo das folhas. Eu ia aos pulos para a escola. Aos pinchos, como se diz em Olival. O som dos tons secos amarelos vermelhos e castanhos quebrando-se é um regalo da estação: nunca hei-de sair para fora do prazer de esmagar as folhas de Outono numa alegria infantil.

O sono deixava-me quase sempre lenta. À tarde aquele caminho repetia-se com a companhia da minha prima no sentido inverso. Havia então muito mais algazarra. Às vezes o meu avô ia buscar-nos na sua lambreta e trazia-nos uma pastilha Gorila para cada uma. É a memória mais forte que conservo dele, velho e orgulhoso esperando em frente à escola que saíssemos para nos levar muito devagar até casa. De manhã e com a minha mãe era muito mais um dever que uma aventura, mas era um trajecto sempre doce.

No início do caminho morava a caseira da minha avó. Chamava-se D. Isabel, mas era conhecida por Louca ou Maluquinha. Tinha por certo passado a fronteira da sanidade, porque passava os dias a berrar canções românticas que se ouviam em todo o Carvalho. Quando parava de cantar chamava pelos filhos. Se eles andassem pela aldeia ouvi-la-iam, mas provavelmente não. Vendiam droga por outras bandas e quando ela se calou definitivamente aproveitaram a casa como sede.
Logo a seguir era a eira da minha avó. Estava quase sempre vazia e hoje parece-me mais um patamar de escadas que uma eira mas naqueles dias era um planeta: eu e a minha prima rebolávamos sobre o milho a secar e fazíamos bonecas com as folhas das espigas. Ela era praticamente minha irmã e tínhamos uma espécie de trava-línguas para explicá-lo: o meu pai é irmão da mãe dela e a minha mãe é irmã do pai dela. Irmãs, portanto. Separava-nos apenas um muro baixo entre as casas, não sabíamos estar uma sem a outra. Hoje não nos falamos, há um muro muito alto entre o nosso entendimento que nos separa o passado do futuro.

Se há coisa que é verdade é que ir para a cidade é sair do campo. Volta-se muito diferente. Basta que passem alguns anos de hábitos urbanos e nunca mais seremos gente do campo. Amolecem-se as maneiras, fica-se mais delicado, menos bruto. Mais polido, talvez com menos brilho.
Comecei muito cedo a afastar-me da mentalidade fechada daquela aldeia. Diziam-me artista, porque os artistas podem ser tudo. Hoje volto à Rua da Fonte do Carvalho e apercebo-me que é impossível mover-me sem deixar raízes na terra. Uma parte de mim estará sempre ali, chamando o resto em tom de saudade.

Quando a minha mãe me levava para a escola não havia nostalgia nem saudade: eu estava apenas na altura de viver inocentemente aquilo de que mais tarde sentiria falta.
Quando acabávamos o atalho, virávamos à esquerda numa estrada de alcatrão onde os únicos edifícios eram duas fábricas e que hoje está repleta de moradias humildes. Uma dessas fábricas faz parte da nostalgia. Fazia casacos de inverno e fatos-de-treino em poliéster brilhante e colorido típico dos anos 80. Eu e a minha prima apanhávamos os retalhos que sobravam pelo pátio da fábrica e levávamos para casa para brincar ou para a minha mãe remendar trapos.
Em frente a essa fábrica apanhei uma vez o primeiro grande susto de que me lembro. Ao voltar da escola, sozinha, o meu passo foi interrompido: uma cobra fina e longa, colorida em tons ocre. A minha rebelde curiosidade não quis conhecer o inimigo e desatei a correr pelo atalho e atravessei todo o chão de terra e todas as plantas e os sons e os bichos e a água e os muros e as árvores e as moscas numa velocidade desmedida e só parei na fonte, depois das alminhas. Na manhã seguinte, ao passar com a minha mãe, a cobra ainda lá estava, inanimada. Era um pedaço de cordel daqueles feitos de fios de nylon entrelaçados com várias cores. Foi também a primeira grande vergonha de que me lembro, e não a quis contar à minha mãe.

Depois dessa estrada, por fim a escola: ao todo era menos de um quilómetro, e depois o edifício velho, ainda típico do Estado Novo, paralelepipédico, branco, telhado de tijolo, muitas janelas alinhadas ortogonalmente e os vidros decorados com desenhos e figuras coloridas. Amigos de todos os feitios, carteiras de madeira e metal, crucifixos nas paredes e professores antiquados e jogos da macaca e da cabra-cega e leite com chocolate ao lanche.
Era ao todo menos de um quilómetro e todo o caminho corre ainda dentro de mim como um ensinamento supremo, como uma fonte que é raiz de um lugar.

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